Breve reflexão sobre o tempo
ESCRITAS
4/27/20261 min read


O tempo nos dá marcas. Marcadores do tempo. Eu, de vez em quando, reencontro pessoas. Uns se reciclaram, outros surpreendem, outros se mudaram por completo. Outros estão na mesma página — talvez sempre souberam o seu caminho. E, nesse movimento da vida, as marcas são sutis. Percebemos o tempo quando olhamos para trás, pelos erros, pelos acertos e coragens. Mas percebemos o tempo no hoje quando preferimos dormir cedo, valorizar uma nutritiva refeição, ver menos as amigas pelos compromissos da maturidade, pelo pouco espaço que se dá à mãe.
O tempo me trouxe também a solidão, ela vem me visitar com frequência. As decisões são solitárias. As comemorações também. Poucos ficam. Poucos quero que fiquem. Prefiro minha casa a um bar. Prefiro me calar do que me mostrar. Sorrio para poucos, choro só para mim — e para minha namorada (sou chorosa). Não há companhia para tudo. O tempo arranca, se deixar. E, nessa dança desafinada que a vida dá, você aprende a lidar com você e com seus sentimentos. Você valoriza seus sentimentos. Você começa a desenhar seus limites.
O tempo vai nos tirando pessoas e animais. Toda hora indo alguém… Estamos mais atentas a essa despedida. A coisa mais angustiante que existe é a presença da morte. Tudo desaba. Mas ensina para o que devemos, verdadeiramente, sofrer.
36 anos de tempo. Quem sou? Menina no interior que trabalha na metrópole, gosta de mato, mas tem alergia a mosquitos. Se descobriu lésbica — e ama esse mundo que se abriu — e o amor de verdade. Não gosto de ser o centro das atenções, mas ama aniversariar. Sou muitas que virão. E quero acolher todas, independentemente das rugas, das escolhas, das gordurinhas, das dosagens da vida.
Sou o tempo. Vejo o tempo. Sinto o tempo. Percebo ele. Viver é travessia. E talvez o segredo seja degustá-lo.
Deguste seu tempo.
