Uma carta para minha infância

ESCRITAS

2/11/20264 min read

Querida, minha infância.

Às vezes me pergunto como cheguei até aqui. Me recordo dos cafés da manhã sempre postos à mesa, numa toalha surrada, mas limpa. Havia chá mate quente no bule, com um coador suspenso, ou leite com Nescau ou Nesquik (lembra disso?), acompanhado de broa de milho caseira ou chapati — uma receita de farinha e água. Minha mãe não se orgulhava tanto dessas ofertas matinais; ela queria dar às quatro filhas uma mesa com mais opções de frutas, iogurte, mel, cereais, pães, frios e bolos. Eu sentia isso em seu olhar quando me maravilhava ao ver mesas como essas na televisão ou na casa da minha madrinha, quando dormíamos lá. Não tinha vários pães, mas havia torradinhas que ela mesma fazia, banhadas na manteiga, e sempre tinha leite morno para acompanhar. Eu queria encher as mãos dessas torradinhas, mas minha mãe só deixava eu pegar umas seis.

Na escola, eu sempre era a menina que aproveitava os materiais escolares do ano anterior. Estavam bons, tinham que ser aproveitados! Um argumento que levo até hoje para não cair no consumo exacerbado. Usava minhas roupas e, principalmente, sapatos — que eram caros — até o último suspiro. Mas nunca andava malvestida, suja ou rasgada. No início do ano, a escola era um desfile de quem tinha o uniforme mais novo, a mochila mais colorida e o lápis mais pop. Eu me aproximava para ver as novidades daquele mundo tão distante do meu. Minha mãe comprava apenas caderno, lápis e outras coisas que a escola exigia, só. Nada além do necessário. Eu entendia a minha situação; não chorava ou resmungava em casa por conta disso, muito menos cobrava da minha mãe coisas novas. Mas talvez eu nem tivesse chance de me rebelar. Mas ela sabia, mãe sabe de tudo. Um dia ela comprou um caderno com a capa da Sandy & Junior estampada enoormeee. Lembro que foi um dia bem feliz e fiquei horas admirando a capa.

Certo dia, assisti a um vídeo no Instagram em que uma psicóloga diz que todas as crianças passam por bullying no colégio — uns mais agressivos, outros mais amenos, mas não deixa de ser bullying. Cavei no pote das memórias esquecidas e me veio uma cena que minha irmã gêmea também lembra com vigor, afinal, a gente vivia juntas. Quando eu tinha uns 8 anos de idade, eu ia para uma creche particular para que minha mãe pudesse trabalhar. Ela achava saudável, prático e de baixo custo levarmos pipoca para o lanche do recreio. Colocava a pipoca num saquinho e comíamos sem problema algum. Muitas vezes distribuíamos e trocávamos lanches: pegava uma uva aqui, um biscoito recheado ali, um pedaço de salgado de presunto acolá ou um gole de suco. Era divertido, quase que um piquenique coletivo com os coleguinhas, e todos adoravam comer pipoca de graça com a gente, pois o Seu Ronaldo vendia pipoca no carrinho do lado de fora da creche que cheirava bem e dava vontade de comer.

Numa manhã em que estávamos rodeadas de amiguinhos, uma menina loira, de meias altas bordadas e com um rabo de cavalo esticado no alto, debochou do nosso lanche e disse “Olha o lanche delas, devem ser pobres. Vocês são pobres?”. Até então, eu não sabia o que significava aquela palavra, mas certamente ela sabia. Quando cheguei em casa, perguntei à minha mãe o que significava ser pobre. Ela respondeu que “não somos pobres, somos regenerados”. Ela me ensinou que ser pobre é uma condição material; ser regenerado é um estado de consciência. Quando ela me disse isso, reforçou que identidade não é circunstância, que o que falta hoje não define o que se é nem quem se pode vir a ser. Mostrou que somos dignas, mesmo quando os recursos são poucos.

Agora, sabendo o seu significado, não mudou tanta coisa em mim, eu acho. Continuava levando pipoca e dividindo com os coleguinhas. Depois desse episódio, lembro do dia em que mamãe comprou uma caixa com mini pacotinhos de biscoitos da Elma Chips; um vizinho trabalhava na fábrica e conseguia um bom preço. No dia seguinte, cheguei à creche toda me achando, com meu pacote de biscoito chique. Eu entendi ali o que era aquilo. Ter e exibir fazia parte do jogo que as crianças já sabiam jogar.

Agradeço a cada memória viva aqui dentro, que trouxe um oceano de valores para a minha história. Sei de onde eu vim, onde pisar e em quem devo confiar. Certamente não será em quem debocha da minha realidade, e muito menos naquele que cresce subindo os degraus que eu fabriquei com tanto suor, cuidado e apreço.

Hoje eu agradeço cada parte da minha infância e dou vários presentes àquela criança. Entro numa loja e compro o meu estilo — isso faz diferença quando você passou uma vida comprando em bazar, porque é mais barato, ou aceitando doações. Acaricio essa menina. Dou a ela um café da manhã farto, superfaturado de vez em quando. Compro sapatos bons e gosto de viajar de carro. Graças àquela criança de sorriso solto, eu sei para quem posso sorrir hoje.

Tenho que aprender muitas coisas ainda; afinal, a minha autonomia começou faz pouco tempo. Mas me certifico sempre de onde vim, para evitar furar fila ou entrar onde o meu universo é incompatível. Ah, eu continuo comendo a minha pipoca. Jamais deixarei de comer.