#2 Contos Íntimos: existir dentro de si (parte 3)
Se descobrir é maravilhosamente incrível
CONTOS ÍNTIMOSSAPATÃO
3/26/20266 min read


ATENÇÃO! CONTEÚDO PARA 18+
Esta é uma continuação da leitura, se você não leu ainda, se atualize aqui:
Sugestão de música para a leitura:
Clara não acreditava em coincidências, mas acreditava no amor. Estava certa de que tudo o que tinha acontecido - o encontro nas escadas, a mudança, o término, o convite para uma noite - era um sinal que ela estava prestes a captar e se jogar no improvável. Clara namorou uma mulher que a traiu com outra mulher. Depois se envolveu com outra mulher, mas sempre às escuras, num beco desconhecido, na casa, no motel. De um dia para o outro essa mulher sumiu, e levou seu coração junto. Até hoje ela não sabe o que aconteceu, se ela fez ou disse algo. A pior coisa do mundo é a vida passar em cima da gente e acharmos que a culpa foi nossa. Doente do coração, triste pela perda repentina, Clara quis ficar sozinha por um tempo.
Mas o tempo não deixou, ele lhe deu uma companhia. O tempo sempre dá. Sentada na beira do calçadão da praia, molhada da corrida que acabara de fazer ouvindo um rock numa tentativa de soltar os demônios que a sugam para baixo, veio Bianca, uma mulher que estava com os joelhos sangrando por ter acabado de cair correndo seus 8k matinais de sábado. Clara lhe serviu água e ofereceu álcool em gel para passar no machucado - ela depois da pandemia sempre andava com o vidrinho de álcool no bolso. Bianca chorava de dor, Clara a acompanhou - mas por razões distintas.
Elas começaram a conversar e trocar informações pontuais a respeito uma da outra: onde mora, quando corre, idade, profissão e com quem morava. Bianca deu seu endereço e Clara foi visitá-la de noite, levando uns curativos em uma mão, e uma cerveja na outra. De joelhos pro ar fizeram daquele encontro uma sinfonia. Teve boas trocas, uma excelente química, mas sem futuro (não se animem). Bianca não estava pronta para se assumir lésbica. E não queria enfrentar os pais e nem a sociedade. É necessário coragem, mas acima de tudo, certeza. Sair do armário é mais do que orgulho, é estar seguro de quem você é e quem você quer ser.
Clara, naquele momento, se via no mesmo caminho incerto. Sabia o que era passar por todos aqueles preconceitos - fechar os olhos para olhares perversos, desapegar de algumas amizades, ouvir comentários que soavam raiva. Se revelar é marcado por muitas dores, solidão, reposicionamento. Algumas coisas mudam quando você se assume. Mas o que não muda, é o que fica ao seu lado.
Hoje, enquanto Clara lavava o banheiro para receber Fernanda em seu apartamento, tudo veio à tona em milésimos de segundos. Tantos tchaus, tantos desamores, traumas. O recorte do tempo é estratégico, ele te lembra do que não repetir e a romper ciclos para não viver novamente. Mas hoje era diferente, ela se sentia diferente. Por alguma razão intergaláctica ela estava confiante naquele encontro, talvez mais madura com o que ela queria a partir de agora.
Tirou a poeira do sofá. Passou um cheirinho. Lavou os copos. Arrumou a mesa de centro com petisqueiras. Acendeu uma vela no banheiro e outra na sala. Clara estava pronta, depilada e cheirosa.
Toc toc tímido - ela já a esperava.
Sua cabeça explodia de ansiedade, o corpo pulava sozinho, como uma criança ganhando um doce. Fernanda estava com batom vermelho, blusa branca mostrando um pouco do sutiã preto, calça pantalona e um cabelo preso no alto. Vestiu-se para a liberdade que queria, enfim viver.
As duas se olharam em silêncio por alguns segundos.
Fernanda tirou sua sandália com as mãos e seu decote surgiu levemente aos olhos de Clara - e foi um suspiro difícil de conter. Ainda em silêncio e os olhos fixados uma na outra, entregou o vinho nas mãos de Clara e perguntou: “Posso entrar?”
Clara levou o vinho para a geladeira gélida, seu abdômen tremia como um som alto. El conseguia sentir o seu coração pela língua. Virou-se e perguntou para a Fernanda “E aí, como você está?”, com um ar atencioso.
“Depois de anos casadas para tentar me curar de algo que não tinha cura. Depois de fingir orgasmos porque não sentia tesão. Depois de me assumir assexual porque não gostava de sexo. Depois de ser invalidada. Depois de me maquiar e ainda não me ver. Não, não estava bem. Mas agora, sentada aqui com vocêm eu me sinto ótima. Posso te mostrar uma coisa?”
Fernanda abre o seu celular e mostra o último e único post da sua conta no Instagram.
Clara pega o celular insegura, pois achou confidente demais para uma primeira conversa e ficou meio incerta - acho que a trilha da sua vida a deixou dura assim -, mas não estranha. Ela olha a foto do celular e nada mais é que uma frase “Minha vida recomeçou ontem e hoje sou tudo o que eu posso ser”, e uma bandeira de arco-íris.
Fernanda complementa “Não se assuste, mas quando te encontrei, senti algo que queria sair de mim. Estava com aquilo acumulado por muito tempo. E foi ali que percebi que aquele desejo que senti por você, era o desejo que eu queria sentir. Gosto de quem estou sendo hoje.”
Clara segurou sua mão e disse:
- Posso te beijar para você ter mais certeza?
Não era só um beijo. Era vida se erguendo. Era uma história se firmando, trilhando o seu mais puro desejo.
Clara foi até a cozinha e achou uma catarse o que estava acontecendo. Ela já passara por aquilo, mas sozinha. Ali ela era uma mão estendida para a outra. Um abraço que muitas não tiveram. Clara deu um gole de regozijo e, com seus lábios gelados, beijos as mãos de Fernanda. Fernanda tomou seu gole de liberdade e passeou seu olhar indecente pelo corpo de Clara, a cada parte, ela se desfalecia de quereres. Aquele olhar queria muita coisa.
Clara posiciona as mãos de Fernanda em seus seios e ela os aperta com fome.
Clara agora agarra seu pescoço e dá vários beijos suaves. Fernanda logo arrepia e a agarra com vontade de nunca mais soltar. Ela não queria soltar, nunca mais, a sensação de se apaixonar por uma mulher. Seu corpo macio, beijo macio, cabelo macio, pele macia. Tudo era tátil. Tudo era tão macio.
Fernanda tirou sua blusa, estava com pressa de viver, e deixou o sutiã para Clara - que resolveu em instantes. Corpos cálidos e nus no sofá. Pausa para um gole. Corpos nus em pé na sala. Tragaram um cigarrinho. Corpos a caminho da cama fresca pronta para ser comida pelas selvagerias que se emanavam no ar. Fernanda se deitou de barriga pra cima e pernas dobradas. Clara começou a tocando as coxas com dedos inquietos provocando devagarzinho seu sexo, enquanto sua boca mordia seu pescoço. Dedos artistas e boca desejosa fazendo seus trabalhos sem medir o tempo. Ali o tempo era um mero telespectador da vida sendo vivida.
Clara virou Fernanda para o lado e, de conchinha, ambas começaram a se tocar. Que saudade ambas estavam de serem tocadas com vontade. Os cabelos caídos no rosto, enquanto sua respiração violenta os movimentavam. Clara juntou as madeixas num punho só e os puxou com força na medida certa. Não machucou, abriu caminhos. Fernanda não acreditava que chegara lá com tanta facilidade. Escorria entre as pernas o desejo concentrado fazendo as mãos deslizarem para as pernas rígidas que o gozo provocara.
Não foi uma, nem duas. Fernanda chegou em três ápices num entardecer. Ali era ressurreição. Um renascimento de si mesma. Um marco de que aquele sentir era sentido. Todo aquele corpo trêmulo apontava um único caminho, e ela sabia disso. Ela sabia que ali foi validado tudo o que ela achava que estava fora do eixo. Ali era o eixo. Encaixou as peças que procurava nesses anos. Estava mais corajosa a defender todo aquele bailado. Estava em casa - finalmente.
Ambas, Clara e Fernanda, independente do destino das duas, tinham encontrado o que estavam buscando, a existência. Existir, junto a outro corpo, é se achar no mundo. E se encontrar é maravilhosamente incrível.
Obrigada por acompanhar essa história até aqui.
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