#2 Contos Íntimos: o que acontece aqui embaixo? (parte 2)
CONTOS ÍNTIMOS
2/28/20265 min read


ATENÇÃO! CONTEÚDO PARA 18+
Esta é uma continuação da leitura parte 1, se você não leu ainda, leia aqui: https://luisadecarvalho.com/2-contos-intimos-o-que-acontece-aqui-embaixo-parte-1
Sugestão de música para a leitura: https://youtu.be/6fxxghNzKmM?si=t1liARjJjuY1G-qq
A encomenda não chegou. Fernanda fez de sua manhã um detalhado ensaio de como seria a entrega na porta de Clara. Ela iria vestir uma saia jeans com uma blusa de um ombro só. Ombros à mostra. Iria fazer um coque meio bagunçado, mostrando descompromisso. Ela iria rosar as maçãs do rosto e ressaltar os cílios, chamando atenção ao olhar. Mas a encomenda não chegou. Um misto de ansiedade e frustração. Ninguém gosta quando as coisas acontecem diferente de como imaginamos. A gente sai da rota, ficamos imobilizadas pelo acaso.
Clara não pediu que Fernanda pegasse a encomenda à toa. Queria manter contato. Gostou do seu olhar e de sua forma despojada de falar. Ela queria comer aquela boca. Mas tudo mudou quando, no dia seguinte, ela viu Fernanda abraçando Bruno e dando um selinho na garagem do prédio. Foi um iceberg de desapontamento. Clara acreditava que tinha rolado um clima — e tinha, mal sabe ela que Fernanda gozava todas as noites imaginando tal encontro.
Fernanda, ainda decepcionada com tal destino, deitou na rede de sua varanda e devagou em seu passado numa tentativa de alimentar seu peito triste com suas memórias felizes e canais. Há 12 anos atrás, bem antes de Fernanda conhecer Bruno, ela trabalhou num escritório de contabilidade, onde conheceu Clau, uma mulher elegante e absurdamente magnética. Elas se relacionaram por um ano, mais ou menos. Mas Clau queria um relacionamento aberto. Fernanda queria ter o sossego de um amor só e, por isso, acabaram rompendo o relacionamento. Pode ter sido curto o caso delas, mas foi o suficiente para marcar eternamente a liberdade sexual de Fernanda.
Há 12 anos atrás, no jardim de Clau.
Clau vinha de família nobre, seus pais eram ricos, donos de um mercado popular de grande porte na cidade. Sua casa era grande e exuberante: 3 quartos confortáveis, pé-direito alto, obras de arte pela casa toda, empregada e jardineiro todos os dias e, o lugar que Fernanda mais gostava, uma piscina de azulejos verdes, daquelas que dava água na boca por um mergulho sempre que a olhava. Elas sentaram ali, na espreguiçadeira próxima à piscina, numa noite de verão, bebiam cerveja artesanal e beliscavam mini esfirras árabes. Elas estavam sozinhas. A casa toda para elas.
Clau sabia como seduzir, tinha um dom. Quando começaram a ficar “altinhas”, Clau deixou só as luzes verdes da piscina acesas e encheu ambos os copos. Acendeu um cigarrinho e aumentou o som. Ela sabia por onde começar. Suas mãos passearam no pescoço de Fernanda. Tudo num silêncio de voz. Só se ouvia o blues e os grilos. Clau deu um gole de sede, deixando seus lábios gelados. Começou beijando seu pescoço devagar, beijo de amor, cuidado. Sentou em cima de Fernanda, a olhou nos olhos e sussurrou:
— Seu cheiro faz com que eu esqueça o mundo.
Um bom elogio, na sequência certa, é mais estimulante do que você imagina. Os olhos de Fernanda ressaltaram de contentamento e os ouvidos levitaram. Clau levanta, dá seu último trago e tira a roupa de costas. Esperar não faz parte do vocabulário das sapas. As lésbicas não fazem jogo, elas jogam. Nua em direção à beira da piscina, ela acena, chamando-a. Fernanda a acompanha seguindo seus passos. Apoia seus cotovelos no piso antiderrapante, peitos à vontade e pernas suficientemente bem acompanhadas pela cabeça de Clau.
Entraram na piscina. Mergulharam, se beijaram, se molharam mais ainda. Fernanda gostava quando tinha atenção toda só pra ela. Gostava de ser a única. Elas subiram para o quarto e, no banho quente, as mãos se encostaram e a festa recomeçava. Nada tinha limite, e nessa desordem foi-se navegando em si e descobrindo territórios jamais tocados. Aquela noite foi inesquecível e Fernanda sempre lembrava com um suspiro de saudade. Talvez tenha sido por essas e outras noites de ardência, de total entrega, que ela esteja tão desanimada de seu mesquinho sexual marido. Sempre que lembrava de Clau, ou das noites com Gabi usando cinta no tempo de escola, ou quando beijou uma mulher no meio do bar e a levou para o banheiro. Foram muitas emoções tatuadas no corpo. Impossível de qualquer macho superar. Fernanda sentia falta da energia feminina sexual. Ela estava morrendo de saudades disso e, sua vizinha Clara, reativou esse instinto. Afinal, Fernanda já sabia o que ela gostava. Ela viveu em seu corpo.
Fernanda tirou a aliança.
“Bruno, eu só gosto de mulheres. Eu quero viver com mulheres a minha vida, não com você. Não acredito em nós. Talvez nunca tivéssemos existido de verdade.” Foram facas enfiadas no peito. Mas não o matou. Ele vai sobreviver.
.
Passou-se um mês. Caminhãozinho de mudança na porta do prédio. Clara, que gostava de uma fofoquinha, ficou observando quem estava por trás daquelas caixas e móveis desmontados. “Fernanda vai se mudar!” Quando viu da varanda o caminhãozinho ligando o motor e ela abraçando Bruno num toque frio e distante. “Eles terminaram, ele está se mudando?”, pensou. Bruno entrou no caminhãozinho e Fernanda, sem olhar para trás, fechou o portão do prédio.
Fernanda sobe as escadas. Clara a acompanha pelo olho mágico. Fernanda parou em frente à porta de Clara e ameaçou tocar. Clara foi covarde, não abriu a porta para surpreendê-la. Talvez fosse cedo demais, pensou.
Já arrependida pela decisão, ela abre a porta e a chama num tom baixo: “Fernanda?”. Fernanda estava quase chegando no quarto andar, mas ouviu e respondeu: “Oi… Clara?”
Clara, sem reação à sua atitude impulsiva, responde: “Quer…” Enquanto pensava nas palavras que iria completar a frase, Fernanda já está em seu andar, descendo os degraus finais. Clara: “Está tudo bem?”, achou mais certo perguntar do que convidá-la para transar — que era o que ambas queriam.
— Vai ficar tudo bem.
— Sempre fica —, olhando profundamente em seus olhos.
— Recebeu a encomenda?
— Sim, obrigada pela disposição. Teve algum problema no carro da transportadora e acabou atrasando a entrega.
Silêncio. Uma para o olhar na outra de forma inquietante. Clara completa:
— Encomendei várias bebidinhas gostosas para meu bar. Quer beber algo?
— Só preciso de um banho… Às 17h fica bom pra você?
— Te espero. Te espero… ansiosa aqui.
Clara estava ansiosa mesmo. Aqui, entre mulheres, não tem joguinho, não se escolhe muito o que fazer ou falar. É direto. A intenção é clara. O desejo é evidente.
Fernanda mal conseguia se conter de alegria, sua carne estava viva novamente. Ela ouvia seu sangue pulsar. Suas pupilas dilatarem.
Clara sabia que aquela tarde seria especial e já encomendou várias coisas no delivery para deixar cada detalhe especial e único. Ela não sabia nada sobre Fernanda: uma hétero mal resolvida? Uma aventura? Mas estava disposta e totalmente contagiada pelo desejo iminente.
Fernanda já sentia sua pele corar, o corpo aquecer. Estava prestes a voltar a ser quem ela era.
Desculpas, mas vou ter que deixar a continuação para o próximo sábado, Não caberia aqui o que rolou. Mas uma coisa eu te digo: prepare a sua imaginação — e seus dedos.
Todo sábado um conto íntimo para mulheres que amam mulheres. Se inscreva e acompanhe!
